Verdade, pra mim, é uma coisa complicada. O que eu consigo chamar de verdade é basicamente aquilo que você consegue provar. Não que tudo que não pode ser provado seja necessariamente mentira. Mas na busca por verdades, o caminho passa pela busca de provas.

Como buscar a verdade

Se eu afirmo algo e não tenho certeza, vou recorrer à pesquisa. E na internet existem fontes mais e menos confiáveis para isso.

O Google Scholar, por exemplo, permite encontrar e acessar artigos científicos, embora muitos estejam atrás de paywall e exijam acesso institucional ou pagamento. A Wikipédia é a maior enciclopédia do mundo, construída coletivamente e sem fins lucrativos. Ela tem erros, as pessoas erram, mas o esforço coletivo tende a ser bem mais preciso do que o que circula em redes sociais como Instagram, Facebook ou grupos de WhatsApp, onde uma busca simples frequentemente revela que o que você acabou de ler é uma inverdade absurda.

O Archive.org, com sua Wayback Machine, é outro recurso útil: permite ver versões antigas de páginas da internet, o que ajuda a verificar se uma informação foi alterada ou simplesmente deletada.

A Wikipédia também não é uma fonte final. Ela é um agregador: você lê o artigo para entender o assunto e, a partir das referências, vai até a fonte original da informação. Esse caminho até a fonte é o passo que a maioria das pessoas ignora.

Antes da internet, essa pesquisa seria feita numa biblioteca: ir até a categoria do assunto, pegar um livro clássico da área, consultar o índice. Mas uma biblioteca é física. Você pode estar numa cidade que não tem uma biblioteca grande, ou que não tem biblioteca alguma. A internet, bem ou mal, democratizou o acesso à informação de uma forma que a humanidade nunca tinha experimentado antes.

A questão é sempre a mesma, independente do meio: senso crítico. Qualquer informação que você consuma, seja num livro, numa biblioteca ou na internet, pode ser falsa. Fontes mais confiáveis existem, e é importante saber distingui-las.

Vale lembrar também que as redes sociais não são neutras nesse processo. Os algoritmos foram projetados para maximizar engajamento, e o que mais engaja é o que já confirma o que você acredita. O resultado são câmaras de eco: ambientes onde você consome cada vez mais do que já concorda, sem contato real com perspectivas diferentes ou com informações que contradizem suas crenças.

Como a ciência cria verdades

Até mesmo artigos científicos precisam ser tratados com cuidado. Um único artigo que afirma algo não é suficiente. Outros pesquisadores, em outros lugares do mundo, precisam tentar reproduzir as mesmas condições e obter os mesmos resultados. Essa é a grande dificuldade e ao mesmo tempo a grande força da ciência: você só valida algo através de evidências, testes e hipóteses que resistem à repetição.

E o mecanismo falha com mais frequência do que se imagina. Existe uma crise de replicação real, especialmente em áreas como psicologia e nutrição, onde uma parcela significativa de estudos publicados não consegue ser reproduzida por outros pesquisadores. A ciência tem o processo certo, mas ele não é imune a erros, pressões de publicação e vieses.

A ciência não é perfeita. Não é completa. Não sabe tudo sobre o universo e não está certa sobre tudo. Mas eu acredito que ela é o mecanismo de pensamento mais eficiente que o ser humano já criou para a busca de verdades.

E há uma forma prática de verificar isso: se eu uso verdades da física, da química, da biologia e da engenharia, consigo construir prédios, pontes, carros, computadores, celulares, espaçonaves. O que prova melhor que aquela base é sólida do que conseguir construir algo que realmente funciona com ela? As pessoas usam celulares e internet o tempo inteiro. Tudo isso se baseia em leis da física. Se essas leis estivessem completamente erradas, como seríamos capazes de construir algo tão absurdamente complexo?

Evidências além do testemunho

Se eu afirmo que alguém entrou na minha casa e roubou algo, meu testemunho sozinho não é suficiente. Posso mentir. O que fortalece a afirmação são as evidências: imagens de câmeras da rua, câmeras internas, vestígios materiais que a pessoa deixou. Testemunhos de outras pessoas. Evidências que vão além da minha palavra.

Só o testemunho não basta. Evidências materiais e independentes são o que sustentam uma verdade.

A verdade no cotidiano não é tão importante quanto parece

Aqui vem o ponto que eu acho mais interessante: a verdade não é tão importante assim na maior parte da vida cotidiana.

Não estou falando de mentir por má-fé ou por um ato antiético. Estou falando sobre a verdade dos fatos, das afirmações do dia a dia.

O nosso cérebro não é confiável para resgatar memórias. Ele preenche lacunas que não estão lá, distorce, cria memórias inteiras sem que a gente perceba. Quando você está numa mesa de amigos relembrando algo engraçado que aconteceu no passado, a versão que você conta provavelmente não é exatamente como aconteceu. Mas ninguém está buscando precisão. Estão buscando conexão, diversão, pertencimento.

Buscar precisão na verdade em toda conversa social é simplesmente cansativo e desnecessário. E a pessoa que faz isso é o chato da festa. A pessoa mais difícil de aguentar num churrasco, num bate-papo, numa reunião de família.

Vi um estudo que mostrava que as pessoas escolhem suas ideologias políticas muito mais pela identidade de grupo do que pela busca da verdade. Pertencer a um grupo, vestir uma camisa, ter uma identidade coletiva: isso é uma necessidade humana. E essa necessidade frequentemente sobrepõe a busca por fatos. Na política, validar a sua ideologia acaba sendo mais importante do que verificar se o que você está afirmando é real.

Isso se conecta ao viés de confirmação: a tendência de buscar, interpretar e lembrar informações de um jeito que confirme o que já acreditamos. Não é algo que fazemos conscientemente. O cérebro faz isso sozinho, o tempo inteiro. E um detalhe curioso da pesquisa nessa área é que pessoas com maior capacidade cognitiva não são necessariamente mais imunes a esse viés, elas são apenas mais habilidosas em racionalizar a posição que o seu grupo já defende.

Junto a isso, as pessoas confiam muito mais em histórias pessoais do que em dados. "Meu avô fumou a vida toda e viveu 90 anos" convence emocionalmente muito mais do que qualquer estatística de saúde pública. Evidência anedótica é poderosa porque é concreta, humana e fácil de visualizar. Dados são abstratos. E é por isso que falsidades com uma boa história por trás se espalham com tanta facilidade.

Pessoas no espectro autista, por exemplo, tendem a ter uma fixação maior pela verdade, pelos fatos, por regras fixas. E justamente por isso frequentemente têm o convívio social mais difícil.

A conclusão prática é que a verdade é útil para construir pontes, celulares e espaçonaves, mas para a vida social e para o trabalho ela opera de forma diferente. No trabalho, muita coisa vem da intuição, do feeling, do que você acha que provavelmente é o mais certo. Não existe rigor científico no dia a dia profissional. O objetivo é criar coisas que funcionem e sejam úteis.

LLMs e a verdade numa perspectiva interessante

Tem algo engraçado na preocupação que as pessoas têm com LLMs, como ChatGPT, Gemini e Claude, e a questão das alucinações: quando o modelo não sabe a resposta, ele inventa com muita fluência e convicção. Essa é uma preocupação legítima e importante.

Mas é irônico, porque durante muito tempo me preocupei com a verdade enquanto via pessoas ao meu redor, principalmente em relação à política, não se preocupando com isso. E agora a preocupação com a verdade surge com força quando o assunto é inteligência artificial.

Na prática: se você tem um tio que acredita em terraplanismo e em teorias da conspiração, esse tio pode ser menos preciso do que o ChatGPT numa ampla variedade de assuntos. O modelo também erra e alucina, e quando não sabe a resposta inventa com bastante fluência.

Uma LLM só precisa mentir menos do que a maioria das pessoas para já ser bastante efetiva. E eu acho que as pessoas mentem muito, não necessariamente por má intenção, mas por simplesmente não se importarem tanto em validar o que estão dizendo.

Essa é a minha relação com a verdade.