Você existe para desordenar o universo
5 min de leitura"Que eu me organizando posso desorganizar" - Chico Science, Da Lama ao Caos
Esse post é sobre entropia, termodinâmica e vida. Mais especificamente, sobre por que a vida faz sentido dentro das leis da física, e o que isso diz sobre o papel que ocupamos no universo. Não é sobre como a vida surgiu. Finalmente entendi um conceito que eu queria entender faz tempo. E a melhor forma de explicar começa com uma montanha.
A montanha e a chuva
Imagina uma montanha com chuva. As gotas caem aleatoriamente por toda a superfície e começam a descer. No início, o caminho é praticamente aleatório. Mas a montanha tem irregularidades: pequenas fissuras, depressões, variações no terreno. E as gotas que passam por essas irregularidades vão um pouco mais fundo do que as outras.
Com o tempo, essas irregularidades começam a concentrar mais água. E mais água passando pelo mesmo lugar significa mais erosão, o que aprofunda ainda mais o buraco, que atrai ainda mais água. É um ciclo que se alimenta.
Com tempo suficiente, esse processo forma riachos. Riachos formam rios. Rios formam cachoeiras. Uma cachoeira é um sistema complexo, estruturado, eficiente. Mas não houve nenhum projeto por trás disso. Nenhuma intenção. Apenas probabilidade, física e tempo.
O ponto chave é que a cachoeira dissipa energia muito mais rápido do que as gotas dispersas faziam. O sistema se complexificou, e os arranjos mais eficientes foram os que persistiram.
O Sol, a Terra e as primeiras moléculas
Agora pega essa mesma lógica e aplica à vida.
O Sol joga energia absurda no planeta Terra em forma de fótons. Essa energia cai por toda parte de forma relativamente aleatória. Mas assim como na montanha, existem irregularidades. No caso da Terra primitiva, eram combinações de moléculas que, por acaso, conseguiam absorver e dissipar essa energia um pouco mais rápido do que o ambiente ao redor.
Essas moléculas eram como as primeiras fissuras na montanha.
Vale deixar claro desde já: esse texto não é sobre a origem da vida. Não sei como a vida surgiu, e ninguém sabe com certeza. A origem da vida é uma das questões mais abertas da ciência, e qualquer afirmação definitiva sobre o assunto seria desonesta. O que existe são hipóteses sérias, como a do mundo de RNA, mas hipóteses não são respostas.
O que me interessa aqui é outra coisa: não o como exatamente, mas o porquê termodinâmico. Por que um universo que tende à desordem produziria algo tão ordenado quanto a vida? Essa pergunta tem uma resposta mais sólida, e é sobre ela que o texto fala.
E aí entra a mesma dinâmica da montanha: moléculas que dissipam energia de forma mais eficiente tendem a persistir mais. O ambiente ao redor vai ficando moldado pela presença delas, assim como o terreno vai sendo moldado pela água. Com o tempo, estruturas mais complexas aparecem — reações que sustentam outras reações, metabolismo, formas de copiar informação. Não porque havia um plano. Mas porque os arranjos que funcionam melhor são os que sobrevivem por mais tempo.
A vida é termodinâmica
A conclusão que me impressionou é essa: a vida não é uma exceção às leis da física. É uma consequência delas.
O universo caminha inevitavelmente para o aumento da entropia, que é a tendência de tudo se desordenar. O Sol manda energia organizada para a Terra. E toda essa energia precisa ir embora: no longo prazo, 100% do que entra sai: a Terra irradia de volta ao espaço exatamente o que absorve, só que em forma de calor difuso, radiação infravermelha, desordem. Se não fosse assim, o planeta esquentaria para sempre. A Terra não guarda energia. Ela é um sistema de trânsito. E a forma mais eficiente que esse sistema encontrou, ao longo de bilhões de anos, foi criar estruturas cada vez mais complexas que pegam essa energia organizada e a transformam em desordem o mais rápido possível.
A vida é uma cachoeira feita de química.
E a cachoeira é mais eficiente que as gotas dispersas. Por isso persistiu.
A inteligência como acelerador
O que me pegou foi a continuação natural dessa ideia: a inteligência humana segue o mesmo padrão.
A gente constrói coisas. Cidades, indústrias, computadores, aviões, servidores. Tudo isso consome energia de forma massiva e a transforma em calor e desordem. A civilização humana, em escala planetária, dissipa volumes de energia que nenhuma outra estrutura biológica chegou perto.
A complexidade da civilização não é algo separado da natureza. É a continuação do mesmo processo que começou com as primeiras fissuras moleculares na Terra primitiva.
A cachoeira ficou mais complexa. Muito mais.
O lado estranho disso tudo
Tem algo perturbador e ao mesmo tempo libertador nessa visão.
A gente costuma pensar que existimos por algum propósito maior, por uma razão especial. E de certa forma existe: do ponto de vista do universo, somos uma das soluções mais elegantes que a física encontrou para acelerar a dissipação de energia. Somos bons no que fazemos. Excepcionalmente bons.
Mas o que a gente faz de concreto para o universo é aumentar a desordem mais rápido.
Isso soa niilista na superfície. Mas penso diferente: significa que a complexidade, a consciência, a inteligência, tudo isso não são acidentes improváveis numa história sem sentido. São um resultado consistente com um universo que tende à entropia e que, ao longo do tempo, favorece formas cada vez mais sofisticadas de dissipar energia.
Você não é um acidente. Você é a solução mais recente para um problema muito antigo.